Desde o início da pandemia do novo coronavírus, a considerável alta do dólar é cada vez mais perceptível. No Brasil, como consequência da crise mundial, temos um real desvalorizado.

Não é preciso dizer que a economia de muitos países não está em seu melhor momento. Mas a desvalorização do real é ainda mais acentuada do que a de outras moedas listadas entre as mais negociadas do mundo.

Segundo um levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para a BBC News Brasil, o real obteve o pior desempenho entre as 30 moedas mais negociadas no mundo desde o fim de 2019.

Na prática, cerca de 28% do valor do real foram perdidos em relação ao dólar nos últimos meses e essa situação pode afetar tanto os pequenos quanto os grandes negócios.

Neste artigo, vamos abordar as principais razões de termos um real desvalorizado, quem ganha e quem perde com essa situação e o impacto para as empresas e consumidores brasileiros.

O real desvalorizado e os investimentos estrangeiros

Se você já leu nosso artigo sobre o valor do dólar comercial, compreende que, em momentos de crise, os investimentos internacionais costumam ser retirados de países emergentes.

Como o Brasil é muito dependente desses investimentos estrangeiros, quando não pode contar com eles, temos o real desvalorizado.

Isso acontece porque os investidores querem evitar os riscos que surgem com a instabilidade econômica e política. Assim, eles colocam seu capital em locais que consideram seguros.

E a economia estadunidense é considerada sinônimo de segurança porque oferta estabilidade, ainda que em determinadas situações ofereça retornos mais modestos aos investidores.

Assim, se os investimentos se deslocam para a moeda americana, há uma consequente valorização do dólar e, no Brasil, o real desvalorizado.

O problema para a nossa economia nessa situação é que, se o dólar está mais caro, sua circulação no país é mais rara, ou seja, temos menos dólares no Brasil.

Com a queda da circulação de dólares, o preço de diversos produtos sobe, principalmente aqueles produtos que dependem de insumos estrangeiros para serem fabricados ou comercializados.

Conforme as Estatísticas do Setor Externo, relatório publicado pelo Banco Central, entre janeiro e agosto de 2020, o país obteve um saldo líquido negativo de US$ 28,3 bilhões.

Esse relatório considera somente o investimento em portfólio, ou seja, o investimento em ações ou títulos de dívida.

Nesse caso, não foi considerado o chamado “investimento direto no país”, aquele referente ao fluxo de capitais no setor produtivo.

E o pior ainda não passou, já que a expectativa é de uma continuidade dessa perda de investimentos em portfólio nos próximos meses.

O real desvalorizado e os gastos públicos

A crise do novo coronavírus levou muitos países, incluindo o Brasil, a aumentarem os gastos públicos para tentar minimizar os efeitos da pandemia sobre a população.

Quanto maior a desigualdade social, mais difícil é amenizar os efeitos devastadores de uma pandemia. Ou seja, em nosso país os gastos públicos motivados pela crise do novo coronavírus não foram pequenos.

Além disso, os representantes do governo brasileiro não apresentam uma visão unificada sobre a situação.

Enquanto o ministro da economia defende o respeito ao teto de gastos em virtude da pandemia, outros setores do governo acreditam que é preciso flexibilizar esse teto, dada a natureza alarmante e inesperada do problema.

Diante dessa dubiedade, a dívida pública só faz aumentar e o Brasil continua sendo visto como um mercado muito arriscado e instável para os investimentos.

Isso tudo sem falar da taxa Selic, que chegou a 14,25% há quatro anos e hoje está em 2%.

A baixa taxa de juros prejudica a rentabilidade dos títulos públicos e dos ativos de renda fixa, já que, em sua maioria, eles usam a Selic como parâmetro.

Portanto, se o investidor quer um retorno maior, a tendência é mesmo que ele retire seu dinheiro do Brasil.

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Consequências do real desvalorizado

Com o real desvalorizado, o impacto não é visível somente para quem costuma comprar dólares ou consumir produtos importados.

Obviamente as consequências são bastante sentidas por esse grupo de pessoas, contudo há que se lembrar também, por exemplo, dos produtos que são fabricados no país, mas necessitam de insumos estrangeiros. Com o dólar mais caro, eles com certeza também sofrem aumento de preço, o que afeta seus produtores e todos os seus consumidores.

Então, é equivocada a visão de que o real desvalorizado só afeta os consumidores finais de produtos importados e quem trabalha no mercado financeiro.

É mais fácil encontrar no Brasil itens cuja formação dos preços sofre influências das cotações internacionais do que o contrário. Isso acontece, por exemplo com os commodities.

A influência da alta do dólar e consequentemente do real desvalorizado no preço dos produtos nacionais vai desde itens que envolvem vários componentes para sua construção, como os eletrônicos, até produtos oriundos da agricultura, como os grãos.

Neste último caso, o que ocorre é o seguinte: com o real desvalorizado, a receita dos produtores que exportam seus produtos em moeda nacional tende a aumentar.

Então, se o produtor tem tanto a opção de exportar quanto de vender sua produção no mercado nacional, ele vai escolher a primeira opção.

Com isso, há uma diminuição da disponibilidade daquele produto para as demandas do mercado interno.

Entra em ação, portanto, a lei da oferta e da procura: a população não consegue abrir mão de determinados produtos porque, muitas vezes, são necessários para sua alimentação. E como não há grande disponibilidade desses produtos, seus preços tornam-se altíssimos.

Por outro lado, a pandemia provocou uma grande queda na renda e o aumento do desemprego entre os brasileiros.

Por isso, muitas pessoas não conseguem assumir os custos adicionais causados pelo real desvalorizado.

Assim, quando não é possível dedicar toda a sua produção à exportação, muitos produtores acabam não repassando os custos adicionais para os consumidores finais internos.

A lógica é simples: é melhor diminuir a margem de lucros do que deixar de vender.
A meta é, portanto, manter os negócios funcionando, o que não significa que a economia vai bem.

Considerações finais

As viagens internacionais e o consumo de produtos importados estão claramente em queda, mas esse está longe de ser o principal problema dos consumidores e empresas brasileiras neste momento, exceto, é claro, no caso das empresas que oferecem serviços ligados diretamente à importação e ao turismo internacional.

Para resumir a situação, podemos dizer que para os brasileiros em geral, o real desvalorizado representa uma queda do poder de compra.

E a queda no poder de compra impede o aquecimento da economia nacional, causando problemas tanto para os negócios de empresas de todos os portes quanto para a vida cotidiana do trabalhador.

A demanda por produtos duráveis caiu consideravelmente, forçando muitas empresas a fecharem as portas.

Mas mesmo quando se fala em itens de primeira necessidade, como alimentos e bebidas, não é possível obter perspectivas otimistas de um possível aquecimento econômico.

Nesse contexto, o plano deve ser conseguir passar pela crise, ainda que seja necessário reduzir a margem de lucro para recuperá-la posteriormente.

Com o real desvalorizado, há estratégias que você pode adotar para que sua empresa sobreviva ao atual momento. Algumas delas foram listadas em um artigo que produzimos sobre crise financeira. Para acessá-lo, basta clicar aqui. Boa leitura!

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